O fim do usar e descartar na sua empresa

08/01/2026

14min

Mais do que um conceito da moda, a economia circular é, hoje, uma resposta concreta aos desafios ambientais e econômicos do século 21. Inspirada na lógica da natureza — onde nada se perde e tudo se transforma —, ela propõe um novo olhar sobre a produção e o consumo. No entanto, ao contrário do que muitos imaginam, a economia circular vai muito além da reciclagem.

Segundo Flávio Ribeiro, embaixador do Movimento Circular, consultor nas áreas de Economia Circular e Logística Reversa e conselheiro do Pacto Global da Organização das Nações Unidas e do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, esse modelo apresenta uma nova forma de pensar a relação com os recursos naturais. O foco é evitar o desperdício desde o início.

“A reciclagem faz parte da economia circular, mas é a última opção. Antes disso, devemos tentar prolongar a vida útil dos produtos e reduzir o descarte”, explica.

Luciana Branchini, professora do MBA de ESG (Ambiental, Social e Governança, em português) e Sustentabilidade da Fundação Getulio Vargas (FGV), esclarece que a economia circular se inspira na natureza, onde tudo é reaproveitado. Ela destaca três princípios básicos: eliminar resíduos desde a criação dos produtos, manter os materiais em uso por mais tempo e recuperar os sistemas naturais degradados.

“O diferencial está em pensar produtos e serviços que já nascem com a ideia de circularidade, ou seja, que possam ser desmontados, reutilizados ou reciclados sem gerar mais poluição.”

Os dois especialistas concordam que a reciclagem é importante, mas deve ser usada apenas quando o reúso e a remanufatura não forem possíveis. Essas práticas mantêm os produtos circulando por mais tempo e reduzem o consumo de energia e recursos. A economia circular, portanto, propõe substituir o modelo de “usar e jogar fora” por um sistema em que nada se perde e tudo pode ser reaproveitado.

Ao alcance de todos

Termos como economia circular, ESG e descarbonização podem assustar o mundo corporativo, especialmente as pequenas empresas que não possuem equipes dedicadas ou formação específica para lidar com a complexa questão ambiental.

“A maior parte dos negócios no Brasil é composta de pequenas e médias empresas, e é justamente na importância econômica e no potencial desses negócios que reside grande parte das oportunidades para uma economia circular”, acredita Ribeiro.

Contudo, para o embaixador, o tema não deve ser visto como algo distante ou difícil de aplicar. Ele reconhece que os termos podem parecer complexos, mas afirma que muitos pequenos negócios já praticam ações circulares sem perceber.

“Um salão de beleza que separa embalagens de plástico, papel e metal para reciclagem, por exemplo, já está praticando economia circular. Então, o importante é mostrar que eles estão nessa jornada e ajudá-los a avançar, tornando seus negócios cada vez mais circulares.”

O primeiro passo para esse objetivo é justamente identificar tais ações e aprimorá-las com iniciativas simples, como o uso de embalagens retornáveis, refis e materiais reaproveitáveis, por exemplo.

Além disso, a transição para a circularidade deve ser feita de forma gradual, com melhorias pequenas e contínuas, até chegar a mudanças mais profundas na forma de produzir e oferecer serviços.

Ribeiro também mostra a importância das parcerias: fornecedores, cooperativas e outros atores podem ajudar as empresas, especialmente as de pequeno porte, a identificar novas oportunidades e implementar soluções sustentáveis.

“O importante é entender que nenhuma empresa está sozinha nessa jornada.”

Essa visão é compartilhada pela professora Luciana Branchini, que reforça a importância de preparar o terreno para que as empresas avancem de forma estruturada nessa empreitada. De acordo com ela, essa transição para a economia circular nas pequenas e médias empresas começa com a gestão ambiental e pode ser ampliada com inovação nos modelos de negócio.

Para isso, é essencial investir em educação, engajamento e incentivos que estimulem projetos circulares, como programas de inovação e benefícios fiscais. Luciana também enfatiza o papel das grandes empresas em puxar esse movimento, direcionando suas cadeias de valor para práticas mais sustentáveis e impulsionando todo o ecossistema produtivo rumo à circularidade.

Benefícios financeiros

A adoção da economia circular traz ganhos que vão além da sustentabilidade ambiental. De acordo com a professora Luciana, essa transição representa uma mudança profunda no modo de produzir e consumir, capaz de gerar benefícios econômicos e sociais duradouros.

As reduções se traduzem em menor consumo de água, energia e matérias-primas, além da possibilidade de gerar receita com a venda de materiais para outros processos.

“Ao mesmo tempo, os novos modelos de negócio abrem caminho para oportunidades e mercados antes inexplorados.”

Flávio Ribeiro ressalta que, dependendo do tipo de negócio, o impacto econômico pode variar, mas sempre há espaço para inovação e melhoria.

“Um equipamento mais eficiente pode diminuir o gasto com energia, enquanto um resíduo que antes custava para ser enviado ao aterro pode se transformar em produto e gerar lucro.”

Para ilustrar, Flávio Ribeiro cita o caso de uma pequena hamburgueria em São Paulo que opera dentro de uma garagem e instalou um biodigestor de pequeno porte para processar seus resíduos orgânicos. O equipamento gera cerca de três horas diárias de gás, suficiente para alimentar a chapa do restaurante, reduzindo despesas e fechando o ciclo dos resíduos dentro do próprio negócio.

“Esse é um exemplo de como a economia circular pode se traduzir em eficiência, economia e até novos produtos com apelo sustentável, conquistando consumidores e abrindo novos mercados”, destaca.

Embalagem do futuro

Conforme o conselheiro da ONU explica, grande parte das oportunidades para uma economia circular está relacionada à melhoria das embalagens.

Um exemplo é a adoção de embalagens retornáveis em substituição aos invólucros descartáveis ou recicláveis, permitindo que o mesmo recipiente circule diversas vezes entre fornecedor e cliente.

“Há grandes oportunidades para tornar as embalagens mais sustentáveis, seja na escolha de materiais com melhor desempenho ambiental, seja na parceria com fornecedores. Muitas empresas já adotam algumas práticas, como o uso de embalagens retornáveis, substituindo as descartáveis ou recicláveis”, aponta o embaixador do Movimento Circular.

Logística reversa

Mesmo com o avanço de recipientes mais sustentáveis e outras práticas de economia circular, a logística reversa continua sendo um dos principais pilares para garantir o retorno de produtos e materiais ao ciclo produtivo.

De acordo com Flávio Ribeiro, em muitos casos, a logística reversa é uma obrigação legal para fabricantes, importadores, distribuidores e comerciantes. Porém, o sucesso dessa prática depende da capacidade das empresas de transformar essa exigência em oportunidade, gerando valor econômico e fidelização de clientes.

Um exemplo são as marcas que oferecem brindes ou pontos de fidelidade em troca da devolução de embalagens, garantindo o retorno dos materiais e fortalecendo o relacionamento com o consumidor.

A logística reversa é essencial para o funcionamento de qualquer sistema circular — afinal, “o que não retorna, não circula”. Sem o retorno de produtos e embalagens, não há reúso, reparo ou remanufatura possíveis.

O especialista ressalta, no entanto, que a implementação desses sistemas enfrenta obstáculos significativos, como os altos custos de transporte e processamento, a falta de infraestrutura adequada em várias regiões e a necessidade de lidar com resíduos perigosos.

Outro ponto crítico é a concorrência desleal, uma vez que muitas empresas operam à margem da legislação, oferecendo serviços mais baratos sem cumprir as exigências legais e ambientais.

Conscientização

Um dos principais desafios da transição para a economia circular é a mudança de mentalidade diante do modelo linear ainda predominante na produção e no consumo.

De acordo com Luciana Branchini, as empresas têm papel essencial nesse processo, especialmente por influenciarem o design de produtos e serviços. Essa transformação passa pela educação e conscientização de colaboradores e clientes, com incentivos que estimulam novos comportamentos e formas de consumo mais sustentáveis.

Flávio Ribeiro corrobora essa visão, acrescentando que a mudança de mentalidade deve começar dentro das próprias organizações. Para ele, é quase uma “obrigação moral” de as empresas capacitarem seus colaboradores em temas ligados à sustentabilidade, para que entendam o propósito e se engajem de forma genuína.

O especialista lembra que o sucesso das iniciativas circulares depende da participação ativa tanto da equipe como dos consumidores, que precisam ser convencidos a adotar práticas como devolver embalagens, participar de sistemas de reúso ou aceitar novos modelos de negócio, como o aluguel de produtos. Sem esse engajamento coletivo, nenhuma estratégia de economia circular prospera.

O embaixador aponta três grandes tendências da economia circular que devem orientar as empresas nos próximos anos.

A primeira diz respeito à composição dos produtos, com a eliminação gradual de substâncias nocivas à saúde e ao meio ambiente — um movimento já perceptível em setores como o de cosméticos, que investem em linhas livres de parabenos e outros compostos tóxicos.

A segunda está ligada à evolução das embalagens, com foco em modelos de reúso, redução de peso e aumento da reciclabilidade. Segundo ele, embora as indústrias estejam mais atentas às exigências legais e ambientais, o comércio ainda tem espaço para avançar na adoção de soluções mais sustentáveis.

Por fim, Ribeiro aponta a importância crescente dos chamados ciclos orgânicos, haja vista que grande parte dos resíduos urbanos é composta de restos de alimentos e podas. A recuperação desse material — por meio de compostagem, biodigestão ou produção de biogás — não só reduz impactos ambientais, como também ajuda a combater as mudanças climáticas.

“A economia circular é, talvez, entre todas as abordagens da sustentabilidade, a que mais se baseia na colaboração e nas parcerias. E é justamente aí que reside sua grande beleza: na capacidade de transformar o sistema econômico atual, ainda tão competitivo e individualista.”

Para que ela funcione, é preciso contar com parceiros em todas as etapas — fornecedores, clientes, cooperativas de catadores, prefeituras e até entidades representativas.

PRIMEIROS PASSOS PARA A ECONOMIA CIRCULAR NA SUA EMPRESA

A adoção de práticas circulares deve ser uma jornada gradual e cíclica. A Confederação Nacional da Indústria (CNI) sugere que as empresas comecem por uma avaliação detalhada e sigam um plano de cinco etapas:

  1. Avaliação do contexto atual
    O ponto de partida é diagnosticar a maturidade da empresa na circularidade, mapeando seus fluxos de valor e perdas.
    Ferramenta sugerida: utilize a Rota de Maturidade em Economia Circular (CNI) para realizar a autoavaliação e o diagnóstico do seu nível atual.
  2. Definições
    Após a avaliação, é preciso estabelecer metas e objetivos claros que guiarão a transição circular da organização.
  3. Desenvolvimento de estratégias
    Crie planos de ação a partir de uma visão abrangente e sistêmica. Analise todas as perdas de valor ao longo da cadeia para mitigar lacunas e identificar novas oportunidades.
    Sugestão: refaça o Business Model Canvas da empresa, incorporando as novas práticas circulares.
  4. Implementação
    Nesta fase, a cooperação é essencial. Todos os envolvidos na cadeia de valor devem estar conscientes dos benefícios. A comunicação eficiente com as áreas-chave e com os stakeholders é fundamental para o sucesso.
    Recomendação: crie uma estrutura de governança para a rede de valor, definindo processos e instrumentos de gestão para a tomada de decisões.
  5. Monitoramento
    O processo exige melhoria contínua. Utilize Indicadores-Chave de Desempenho (KPIs) para monitorar os resultados, divulgar relatórios de progresso e revisar os planos de ação sempre que necessário.

Fonte: Luciana Branchini, da FGV

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