Luiza Trajano: “sem perder a essência”

23/08/2021

9min

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Presidente do Conselho de Administração do Magazine Luiza, onde trabalha há quase 50 anos, Luiza Trajano foi a grande responsável pelo vertiginoso crescimento da empresa. Conheça um pouco de suas ideias nessa entrevista exclusiva concedida ao Atacadão.

A história de Luiza Trajano: um grande exemplo de mulher empreendedora

Para se ter uma ideia da dimensão e importância de Luiza Helena Trajano bastaria dizer que, neste ano, ela foi incluída no Hall Mundial da Fama do Varejo ao lado de nomes como Sam Walton, Giorgio Armani, Jeff Bezos (fundador da Amazon), entre outras figuras conhecidas da atualidade.

A honraria faz jus a uma mulher trabalhadora e empreendedora

Aos 12 anos, ela já dedicava suas férias escolares para trabalhar na pequena loja de presentes que a tia, Luiza Trajano Donato, então balconista, comprara em 1957, em Franca, no interior de São Paulo. Aos 18, ingressou no curso noturno da Faculdade de Direito e passou a trabalhar todos os dias.

Em 1991, assumiu então a Superintendência do Magazine Luiza para realizar um trabalho fantástico e quase sem precedentes na história do varejo brasileiro. Graças a ela, o Magazine Luiza é, atualmente, um conglomerado de lojas espalhadas pelos estados brasileiros, além de ter se modernizado a ponto de ser uma das redes de varejo com maior e melhor atuação no mundo digital.

Hoje, Luiza preside o Conselho de Administração da empresa que é gerida no dia a dia por seu filho, Frederico. Respeitada e amada por seus milhares de funcionários, a empreendedora tornou o Magazine Luiza um dos melhores lugares para se trabalhar no Brasil. 

Confira, a seguir, a entrevista que Luiza Trajano concedeu, com exclusividade, ao Atacadão. 

 

Dona Luiza, o Magazine Luiza é hoje como se fosse uma instituição no varejo brasileiro. A senhora já deve ter respondido muitas vezes esta pergunta, mas é sempre bom ouvi-la novamente. Qual foi a grande receita para todo esse crescimento?

“Tenho um quadro na minha sala com uma frase de São Francisco de Assis que diz: ‘Comece fazendo o que é necessário, depois o que é possível e, de repente, você estará fazendo o impossível’. Não acredito em receita pronta, um empreendedor precisa de dedicação e ir realizando suas atividades com planejamento, pensando grande, sem tirar o olho do fluxo de caixa da empresa.”

A senhora começou a trabalhar no Magazine Luiza no início da década de 70 e continua até hoje, trabalhando e visitando lojas. De onde vem toda essa sua tenacidade?

“Comecei a trabalhar aos 12 anos, na loja da minha tia, Luiza Trajano Donato, apenas nas férias escolares. Depois, aos 18 anos, quando ingressei na faculdade no noturno, passei a me dedicar ao trabalho, passando por todos os departamentos, de vendedora a gerente de loja, até assumir a superintendência, em 1991.”

“Ao chegar ao cargo mais alto da companhia, sempre me preocupei em não me distanciar do campo, responsável direto com o cliente. Por isso, sempre visitei lojas, e até hoje, quando tenho oportunidades em viagens, gosto de ir às lojas para entender as necessidades e o dia a dia dos vendedores, que são os responsáveis pelo contato com nossos clientes. Adoro essa relação de troca com a equipe”, completa.

Falando em cliente, nos diga qual a importância real do cliente?

“Ora, o cliente é quem paga o salário de todos da companhia. Por isso, tem que ser a razão e o foco de todos, inclusive dos escritórios. Partindo deste princípio, temos que envolver a equipe toda para trabalhar em prol do cliente, seja qual for o cargo ou área em que o profissional atue. Ele está na empresa para servir o cliente”, enfatiza.

Aliás, que conselhos a senhora daria para quem quer empreender no Brasil de hoje, abrir uma empresa, fazer seu negócio crescer?

“O Brasil tem empreendedores muito criativos, e em grande número. Para os que querem começar, acredito que devem estar muito atentos a dois pontos. O primeiro é se preparar fazendo algum curso. Existem dezenas de cursos básicos e necessários, como fluxo de caixa, a baixo custo no Sebrae, por exemplo. E depois, ir se aperfeiçoando em novas competências. O que eu sempre falo para quem está iniciando é que, além de escolher uma área pela qual tenha conhecimento e paixão na atividade, é necessário aprender a separar muito bem o seu dinheiro do dinheiro da empresa, que é sempre uma tentação para quem está iniciando um negócio.”

Dona Luiza, além de um exemplo de empreendedorismo, a senhora tem sido uma grande defensora da inserção das mulheres como dirigentes no mercado empresarial. A senhora vê avanços nesse sentido? Quais são os grandes atributos femininos para a gestão de uma empresa?

“Os atributos da gestão feminina estão totalmente conectados com o novo modo de administração. Por isso, as empresas que desejam estar integradas às necessidades do mercado precisam de mulheres, tanto em cargos de direção, como em todos os departamentos. No caso específico de Conselhos de Administração de empresas de capital aberto, sou totalmente a favor de cotas. Cota é um processo transitório para acertar uma desigualdade. Caso não sejam estipuladas cotas, levaremos mais de 100 anos para atingir a igualdade de gênero. Muitos países já adotaram esse sistema com sucesso”, conta.

A verdade é que a senhora se impôs como empresária em um ambiente bem masculino…

“A minha maneira de trabalhar foi nunca perder a essência feminina, não alterar o meu jeito de administrar. Ainda temos um longo caminho a percorrer para a criação de uma equidade de gênero.”

E como lidar com a questão do assédio tão em voga hoje?

“Em nosso código de ética — que existe há muito tempo — sempre foi proibido qualquer tipo de assédio. Recentemente, resolvemos fazer um debate onde cada liderança reuniu sua equipe para discutir o que consideram assédio, para deixar as regras claras e não deixar margem de dúvidas sobre o que é considerado por todos como assédio. Foi um exercício muito importante para discussão do tema entre todos. Empresas, mesmo que pequenas, devem incentivar essa discussão entre seus colaboradores”, afirma.

E a senhora tira férias? Viaja bastante?

“Adoro trabalhar, mas encontro tempo para tudo. Viajo em férias e também viajo muito a trabalho. É uma imensa satisfação andar pelo Brasil todo e conhecer um povo maravilhoso, criativo e trabalhador como o nosso. Eu renovo minhas energias conhecendo essas pessoas e trocando conhecimento.”

Olhando para trás, o que mais lhe gratifica em sua trajetória?

“Ao longo de minha trajetória, eu me senti gratificada em muitas situações. Mas o fato de ser uma mulher vinda do interior, inicialmente com uma pequena rede de lojas e gerar mais de 24 mil empregos, sem perder a essência, é muito importante. E também fico muito feliz em ver que, mesmo com esse crescimento constante da empresa, estamos consecutivamente entre as melhores para se trabalhar do Brasil.”

Para encerrar nossa conversa, nós lhe fazemos uma pergunta que temos feito aos nossos entrevistados. Como a senhora vê o atual momento do Brasil? Podemos ter esperança em dias melhores? O Brasil tem jeito?

“Estamos vivendo um momento em que, mais do que nunca, existe a necessidade do diálogo. As divisões que acontecem no Brasil precisam ser conectadas por meio de diálogos, os pontos em comum devem ser procurados visando ao bem de todos. O Brasil é um país com imenso potencial em todos os aspectos. E eu tenho fé que estamos aprendendo muito com tudo o que vem acontecendo, nos desenvolvendo ainda mais, criando igualdades”, conclui a Head do Magazine Luiza, uma das maiores empresas de varejo do país.

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