Rick Chester: “Sou movido pela luta”

27/08/2021

11min

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No dia 9 de abril de 2018, Rick Chester cumpria sua rotina diária de vender água mineral nas areias de Copacabana. Em determinado momento, ele conta que se viu incomodado por um comentário de um rapaz que falava sobre a crise e que desdenhou dele, chamando-o de “apenas um neguinho que vende água em Copacabana”.

Essa indignação fez com que Rick Chester, ao chegar em casa, gravasse um vídeo onde mostrava às pessoas como sair de qualquer crise com apenas R$ 10,00 emprestados e vendendo água como ele.

O hoje, já clássico, “vídeo da água” viralizou de tal modo que a vida de Rick simplesmente mudou da noite para o dia. 

Com ideias claras e muito bem articuladas, Rick se transformou em exemplo e referência de empreendedorismo para o povo brasileiro. Nesse menos de um ano ele, que tinha sido pedreiro, auxiliar de serviços gerais e faxineiro, virou palestrante — convidado a palestrar na célebre Harvard — lançou um livro, fechou contratos de publicidade e hoje tem uma extensa agenda de compromissos que o fazem quase uma celebridade.

Conheça um pouco mais da história de Rick Chester nesta entrevista exclusiva e inspiradora que ele concedeu ao Atacadão

Rick há menos de um ano, você postou um vídeo que mostrava como começar um empreendimento com apenas R$ 10,00 emprestados. E logo você já tinha virado uma referência nacional de empreendedorismo. Por que e como você teve a ideia do vídeo?

“Na verdade, eu já gravava vídeos para as pessoas de meu convívio e colocava no Instagram. Pontualmente, naquele dia do vídeo da água, houve uma situação adversa na praia. Quando eu estava vendendo, algum turista me chamou de ‘neguinho que vendia água em Copacabana’ porque eu o confrontei quando ele disse que o Brasil estava enterrado em crise e que ele queria sair desse país porque aqui não dava pra fazer as coisas.”

“Eu fui vender uma água pro cara do lado dele e falei: ‘olha o Brasil não tá nessa crise toda que você está falando. Talvez não tenha como fazer alguma coisa na proporção que você queira, mas alguma coisa sempre dá pra fazer!’ Aí o cara me chamou de maluco, disse que o meu mundinho era Copacabana, que eu nunca tinha saído de lá, essas coisas. Aquele cara não conhecia a minha história”, completa.

“Foi então que resolvi gravar o vídeo e falar de crise. Existem dois tipos de crise: a crise de números e a crise mental que está dentro das pessoas e que eu acho que é muito maior que a dos números, porque ela leva à outra…”

Mas e antes do vídeo? Nos conte um pouco de sua história

“Ah, eu trabalho ‘por conta’ desde os sete anos de idade. Quando a galera fala em empreendedorismo, eu costumo dizer que empreendedorismo nada mais é do que a evolução do termo trabalhar por conta. Aos sete anos eu já tava vendendo verdura em um carrinho de mão; aos oito já tava vendendo sacolé e aos 40, eu estava vendendo água numa caixa de isopor. Então, eu sempre tive ligação com venda e com entender que eu não precisava de outras pessoas para fazer minha engrenagem girar. Que o mundo poderia até facilitar alguma coisa, mas que eu tinha que fazer a minha parte.”

“A história do Rick é a história da ampla maioria dos brasileiros. O que muda, talvez, seja o que eu fiz com as dificuldades quando elas surgiram. Em vez de me vitimizar, eu fui construindo degraus com as dificuldades e fui subindo, subindo, até chegar no tal vídeo da água, preparado para fazer aquilo. Porque aquilo foi me imposto ali: ‘cara você só pode vender água’. E eu falei: eu posso ir além! E isso é estar pronto. Então, o segredo maior é você fazer o que tem que ser feito e ir se preparando para estar pronto quando vier algo mais pesado”, ele afirma.

A partir dessa mudança em sua vida, você passou a ter um canal no Youtube, tem milhares de seguidores no Instagram, deu palestra em Harvard, escreveu um livro. O que isso mudou na sua cabeça? Como você está convivendo com esse sucesso?

“Eu sou a mesma pessoa. Não mudei nada! Eu me sinto como o cara que vendia água na praia, trabalhando e comendo do suor do meu rosto, sem me achar a última bolacha do pacote. Simplesmente, estou trabalhando em outras áreas, mas sabendo que, se necessário for, eu tenho disposição para vender água, para trabalhar na construção civil, limpar vidro, o que for. Eu não sou movido pela vitória, sou movido pela luta.”

“Essa questão de lidar com o sucesso está muito ligada a como você interpreta o sucesso. Essas coisas não sobem para minha cabeça. Eu sou muito ligado às minhas raízes, sei exatamente de onde vim. E aquele que sabe de onde veio, o que passou, ele não se deixa levar por uma vitória. Ele fala: ‘isso foi só uma batalha vencida, mas a luta continua’. A vida tem que ser considerada dessa forma, vitórias pontuais dentro de uma guerra que continua.”

“Você não pode se considerar no topo da cadeia, nem no fundo do poço. E eu sou esse cara: o sucesso, a fama, não mudaram o homem formado pelo meu velho pai Roxo e por minha mãe Dona Neguinha, nem os princípios que eles me ensinaram de, sempre que puder, fazer por alguém aquilo que não fizeram por mim. Então, eu tento levantar os meus, porque eu sinto que ninguém levantou meu povo e eu preciso acordar minha galera, porque acordando ela, a gente acorda essa nação e transforma essa nação no que de fato ela tem que ser. Esses são os meus objetivos”, enfatiza.

O que é, afinal, ser um empreendedor?

“Ser empreendedor é ser guerreiro. Você tem que entender que você tem que ser o ator principal de sua própria caminhada. Você não veio aqui para ser coadjuvante de ninguém. E empreender não significa, necessariamente, abrir o seu próprio negócio. Você pode empreender no serviço público, onde você estiver. Empreender é entender que a máquina de seu corpo é muito completa e muito perfeita, que não é possível que você não consiga deslanchar no que está fazendo nesse momento. Não tem mágica, não tem segredo, é dar exemplo de transformação, é arregaçar as mangas e lutar.”

O que você diria para quem está pensando em empreender?

“Que olhe para a minha história! Há alguns anos eu vendia água em Copacabana. E hoje, já rodei todos os estados do meu país, fui a vários continentes do mundo, assinei contratos de centenas de milhares de reais com instituições internacionais, escrevi um livro best seller…Mudei a realidade da minha família, passei a morar muito bem, minha filha estuda em escola particular… Então, se alguém tá pensando em empreender, olhe para minha história como referência, olhe para o que eu consegui fazer, no tempo que consegui; num tempo em que a maioria gritava que o Brasil estava em crise. Eu decidi que eu não estava em crise e se não estava, podia reverter qualquer situação. Olhe para o que eu fiz e certamente você poderá conseguir tanto ou mais do que eu.”

E onde entra o cliente nessa história?

“Antes de falar sobre a importância do cliente, eu falo do vendedor. Veja uma rede da magnitude do Atacadão, por exemplo — que não é grande por acaso, mas sim pelo empenho das pessoas que nela trabalham. O Atacadão, ou uma banquinha no sinal, ou um cara que vende água na praia tem que entender que o patrão é o cliente. O problema é que todo mundo é comprador, mas nem todo o comprador é cliente. E a função do vendedor é transformar o maior número de compradores em clientes. O comprador precisa se sentir bem na sua loja e querer voltar. Aí, ele deixou de ser comprador e passou a ser cliente. Ou seja, se o vendedor consegue transformar o comprador em cliente, todo mundo ganha. Por isso, o importante é ter vendedores com brilho no olhar, que transformam o ambiente onde estão.”

Para terminar: Rick, o Brasil tem jeito?

“O Brasil é só um nome. Eu prefiro responder sobre o brasileiro. O brasileiro é que tem que mudar. Eu vejo o brasileiro como o povo mais feliz e mais potente do mundo. Uma terra em que tudo que se planta nasce. Como se Deus tivesse falado: ‘Eu coloquei vocês aí no mundo para justificar a lei da semeadura’. Como eu sempre falo, na vida você colhe o que você planta. E Deus colocou mais de 200 milhões de pessoas numa terra em que tudo que plantar, nasce.”

“Ainda assim, muitas vezes, nosso povo não consegue sair do lugar e fazer as coisas acontecerem. Então, o brasileiro precisa voltar a ter o brilho no olhar, um brilho que ainda está escondido dentro de nós. Nada precisa melhorar no Brasil tanto quanto o brasileiro. Porque quando você melhora, tudo em seu entorno melhora e tudo começa a deslanchar. O brasileiro precisa acordar para a verdade e a realidade, que tudo vai começar a evoluir”, conclui o agora palestrante de sucesso.

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