Povo do sul: uma feliz miscigenação!

27/07/2022

15min

região sul

Dando sequência às reportagens que estamos fazendo com o povo de cada uma das regiões brasileiras, chega a vez da região Sul. Gaúchos, catarinenses e paranaenses formam, certamente, a unidade mais heterogênea do Brasil, resultado de uma miscigenação histórica. 

A Região Sul do Brasil, integrada pelos estados do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul tem uma área total em tamanho, de 576.744 km2, que é superior, por exemplo, à área total, somada, de Portugal, Inglaterra, Holanda, Bélgica, Grécia, Áustria e Dinamarca.

Tem uma interessante peculiaridade que a distingue das demais regiões brasileiras: a região Sul é a única região brasileira localizada abaixo do Trópico de Capricórnio, tendo portanto um clima subtropical, ao contrário do restante do Brasil, onde estão presentes o clima tropical e, inclusive, no Norte, o equatorial. Isso significa dizer que o Sul é uma região com temperaturas médias anuais em torno de 18oC e grande amplitude térmica, com verões quentes e invernos muito rigorosos, onde a temperatura chega a abaixo de zero e onde não é raro nevar, principalmente nas zonas de serra do Rio Grande do Sul e Santa Catarina.

A verdade é que as peculiaridades do povo da região já vêm de antes da chegada do homem branco. Ela já era habitada por índios com características diferentes e de outra raça em relação aos demais povos espalhados pelo país. Lá, viviam os guaranis, os carijós, os caigangues e, principalmente, índios guerreiros como os minuanos e os indômitos charruas, ambos com forte influência dos indígenas dos pampas argentino e uruguaio.

Assim, grandes extensões de terra, temperaturas mais rigorosas (com necessidade de prover a sobrevivência no inverno) e as historicamente belicosas áreas de fronteira (com Paraguai, Argentina e Uruguai) nos ajudam a começar a entender por que o povo do Sul é tido como um povo “guerreiro”, que tem na garra e na tenacidade duas de suas principais características.

É interessante que, dentro da própria região Sul, os três estados têm características diferentes.

Além disso, a região Sul é entre todas as do país aquela que recebeu o maior contingente de imigrantes estrangeiros ao longo de sua história, formando um povo absolutamente rico e múltiplo pelas diferentes etnias. Quer ver? Anote aí: alemães, poloneses, ucranianos, italianos, portugueses, holandeses, espanhóis, árabes, argentinos e japoneses (no Paraná); alemães, italianos, poloneses, portugueses, ucranianos, argentinos, paraguaios, peruanos, palestinos e, mais recentemente, muitos haitianos e venezuelanos (em Santa Catarina) e alemães, italianos, portugueses (açorianos), japoneses e poloneses (no Rio Grande do Sul). Isso sem falar na forte influência histórica espanhola. Durante mais de 250 anos, em função do Tratado de Tordesilhas – entre 1494 e 1750 – praticamente toda a região Sul pertenceu à Espanha. Sem falar na proximidade com os países da Bacia do rio da Prata (Argentina, Uruguai e Paraguai) com os quais faz divisa.

Diante de tamanha miscigenação e diversidade de culturas trazidas pelos diferentes fluxos imigrantes, fica mais fácil entender o povo do Sul e, certamente, valorizar sua existência como brasileiros, eis que realmente o são por vontade e opção.

O interessante é que dentro da própria região Sul os três estados têm características bem diferentes, se considerarmos os hábitos do povo.

No Rio Grande do Sul, os rio-grandenses ou gaúchos (denominação adotada primeiro no tempo do Império para identificá-los como lutadores até o final da Guerra dos Farrapos e depois adotada posteriormente pelos próprios habitantes) sofreram forte influência dos gaúchos (sem acento) argentinos, descendentes de uma mistura de espanhóis e índios e homens dedicados à atividade pecuária, com um conjunto firme de hábitos e tradições folclóricas que foi construído ao longo da História, como danças típicas, rodeios, churrasco e chimarrão, além da vestimenta característica (com poncho, lenço, chapéu, bombacha e bota), que lembra os cowboys norte-americanos.

A esse tipo característico vieram se somar, nos últimos séculos, primeiro os açorianos, que em 1772 fundaram a capital Porto Alegre. E, depois, respectivamente, os alemães (que a partir de 1824 se instalaram inicialmente no Vale do Rio dos Sinos e após no Norte do estado) e italianos (a partir de 1875, na Serra gaúcha). E embora tenha recebido várias outras levas de imigrantes, é possível dizer que hoje, o jeito de ser e agir do povo gaúcho, com sua altivez e determinação, espírito competitivo, seriedade e senso de honra – associado a um profundo valor à amizade e hospitalidade –, é basicamente decorrente da mistura e influência dos gaúchos do Pampa, alemães e italianos. 

Já o catarinense, carinhosamente chamado de barriga-verde, é, certamente, o povo “mais europeu” do Brasil. Tem o mais elevado índice de expectativa de vida do país (79,4 anos), a menor taxa de mortalidade infantil, a mais baixa desigualdade econômica e menor analfabetismo do Brasil. A forte colonização alemã se manifesta em cidades como a encantadora Pomerode (com suas casas no estilo bávaro, jardins bem cuidados, ruas limpas e onde as tradições, a cultura e a gastronomia germânica são cultivadas com dedicação), Blumenau (terra da Oktoberfest), Joinville, Brusque e Ibirama. Mas também é forte a presença dos açorianos, notadamente no litoral, onde os primeiros 6 mil imigrantes aportaram na região de Florianópolis entre 1747 e 1753, gerando descendentes hoje dedicados à pesca, por exemplo. E aí ainda um outro contingente populacional – dedicado à atividade agropecuária, distribuído pelo Centro-Oeste do Estado e que foi formado também a partir de migrantes vindos do Rio Grande do Sul. 

O povo catarinense é urbano (apenas 16% vivem nas zonas rurais), hospitaleiro (o turismo é uma das principais fontes de renda do estado), alegre e educado.

O povo do Paraná – paranaense ou paranista –, por sua vez, talvez seja, no Brasil, aquele resultante da maior miscigenação. Nada menos do que 28 etnias (além dos índios tingui, que antes habitavam o território) contribuíram para a pluralidade da população, sua cultura e tradições. Tanto que o lendário Teatro Guaíra recebe, desde 1958, o Festival Folclórico de Etnias do Paraná. Além disso, o povo cultiva eventos folclóricos trazidos pelos imigrantes, como o Fandango (um bailado popular, típico dos caiçaras e pescadores) no Litoral, a Congada e as Cavalhadas, além de inúmeras festas religiosas. 

O povo do Paraná é muito trabalhador, adora a boa comida, é educado, diverso e plural

Os paranaenses têm grande dedicação à produção rural (a “terra roxa”, solo de maior fertilidade no país, cobre 40% do território do estado), sendo que estudo feito em 2013 mostrou que atualmente 71% têm contribuição genética europeia, 17,5% africana e 11,5% indígena.

O paranaense é trabalhador (quarto maior PIB do país), adora a boa comida (a exemplo de toda a região Sul, um bom churrasco no domingo) é educado e, como dito no início, diverso e plural.

A propósito dessa pluralidade, o comerciante Lailton Lima, paranaense de Altônia, 52 anos, e que há 11 anos dedica-se ao comércio de utilidades (hoje dirigindo sua própria empresa, a Big Real), diz que as características do povo do Sul como um todo mudam de região para a região: “Aqui no Paraná, por exemplo, o pessoal de Curitiba é um pouco mais fechado, já o pessoal do Norte do estado já é bem mais alegre, festeiro… A verdade é que cada um tem sua maneira, e do jeito que o vento toca a gente vai rodando”, brinca.  

Também paranaense, nascido e criado em Paranavaí, no Norte do Estado, Janilton Coimbra tem 5o anos e há 20 trabalha no comércio, que começou com um bar e lanchonete da família, virou uma mercearia, depois um mercadinho e hoje é o Supermercado Sumaré, no bairro de mesmo nome e que é cliente do Atacadão desde o início. Perguntado sobre as características do povo paranaense, Janilton não hesita em dizer: “Ah é um povo muito trabalhador”! Ele mesmo é um exemplo disso: com o pequeno mercado – uma loja de 300 m2 que abre de segunda a sábado –, ele pagou os estudos da filha (já formada em Odontologia), de um dos filhos (que agora se forma em Engenharia Civil) e pretende também formar o menor, de 13 anos. Além de trabalhador, ele complementa dizendo que o paranaense, principalmente o de sua região, “é muito hospitaleiro. Quem chega aqui é sempre bem tratado e quem precisa de ajuda não fica sem”.

Já o catarinense Rogério Aldo de Souza, 56 anos, nascido em São José, na Grande Florianópolis concorda que “ser trabalhador” é uma das principais características também do povo de Santa Catarina: “Além de muito trabalhadores, nós somos gente simples, acolhedora e de um temperamento forte quando se trata de organização, seriedade e compromisso assumido”. 

Rogério e a esposa Keiko (pais de Thaís e Taylin) comandam, já há 20 anos, o restaurante e pizzaria Cheiro Verde Kobrasol, que fica no bairro de mesmo nome e atualmente tem 156 lugares, funcionando no almoço, de segunda a sexta, e com um tradicional rodízio de pizzas (“desde o início”!) durante as noites, incluindo sábados. Ele conclui, reiterando: “Embora as diversas influências dos diferentes imigrantes, acho que o melhor realmente a dizer sobre o povo catarinense é que ele é trabalhador. Basta que a gente olhe para os números do desempenho socioeconômico do nosso Estado, no cenário nacional”.

“Os catarinenses são gente simples, acolhedora e de temperamento forte quando o assunto é seriedade e compromisso”

Também catarinense, nascido em São Joaquim (que é considerada a cidade mais fria do Brasil), Maykon Nunes tem 39 anos e também é dono de restaurante, o Casa de Maria, que há três anos ele abriu em Chapecó (no Oeste do Estado), depois de 11 anos trabalhando no mesmo ramo em Ribeirão Preto (SP), “onde fui aprender”, brincar. A Casa de Maria tem 300 lugares e serve buffet ao meio-dia e rodízio de pizzas, massas e risotos à noite. Fazendo coro com os demais entrevistados, ela concorda que a hospitalidade seja talvez a principal característica a representar, de forma conjunta, o povo de todo o Sul do país.  E acrescenta como outra qualidade “o grande espírito empreendedor”.

O gaúcho Delmar Konzen, 59 anos, é hoje proprietário do Super Konzen em Venâncio Aires (RS), que vai comemorar, em dezembro, 20 anos. Ele conta: “Eu trabalhava numa fumageira, minha esposa em uma fruteira no centro da cidade e tínhamos à época um filho pequeno. Ela percebeu então que no nosso bairro não havia fruteiras e resolvemos, de modo inclusive a conciliar o cuidado da criança, abrir uma do lado da nossa casa. Começamos bem pequenos, com um espaço de apenas 70 m2, e fomos indo, no início trabalhando ela e minha irmã. Dois anos depois, deixei meu emprego e vim para cá. Hoje, no mesmo lugar, depois de reformas e compra de terrenos contíguos, nós temos uma loja de supermercados com 800m2, com hortifrúti, açougue, padaria, mercearia, tudo”!

Ele destaca a hospitalidade como uma característica do povo, mas ressalta outras duas que considera muito importantes: “Acho que um dos grandes diferenciais do gaúcho em particular é ser um povo que honra e respeita suas tradições. Além disso, somos um povo guerreiro, que é determinado, que não se entrega por pouco, que vai atrás de seus sonhos e objetivos”.

Enfim, esta é a síntese do múltiplo povo da região Sul: trabalhador, determinado, alegre e hospitaleiro.

Os números de uma região economicamente muito forte

 

Responsável, segundo o IBGE, por 16,2% do PIB brasileiro (embora tenha menos de 7% da área do país) o povo da região Sul é o que se pode chamar de trabalhador e produtivo. Na área agrícola, Paraná e Rio Grande do Sul disputam a segunda posição nacional (atrás apenas do Mato Grosso) entre os maiores produtores de grãos (soja, milho, arroz, feijão e trigo, entre outros). Santa Catarina, embora com apenas 1,12% da área brasileira, é hoje o maior produtor e exportador de carne suína e o segundo em frango entre os estados do Brasil. E o maior, também, em cebola. Sem falar em uma posição destacada em leite, banana e mel, na pesca e no turismo. A região também é a maior produtora nacional de uvas e vinhos, de maçãs, cevada e diversos outros produtos. 

 

Além disso, tem uma indústria pujante e diversificada, que vai de automóveis e caminhões e têxteis até a petroquímica, metalurgia, calçados, celulose e muitas outras.

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